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Uma resenha do livro Duna

Capa da edição da Aleph

Um planeta desértico com dois astros no horizonte. Uma ordem místico-religiosa que busca influenciar o destino do universo e cujos membros podem influenciar mentes fracas com palavras. Animais exóticos. Um imperador. Uma profecia. Parece familiar?

Aposto que você pensou nisso aqui

Possivelmente você pensou em Star Wars (ou Guerra nas Estrelas para quem eh das antigas).

Mas eu estou falando do livro Duna, escrito por Frank Herbert e lançado em 1965, portanto quase 10 anos antes de Star Wars (de 77). Embora a influência seja inegável, vamos à Duna.

A história se passa em um futuro no qual a humanidade se espalhou pela galáxia e passou a viver em diversos planetas. Nesse universo existe um produto muito especial que só existe em um planeta da galáxia, o planeta Arrakis, que também é conhecido como Duna. É dito que esse produto, chamado simplesmente de “a especiaria”, além de ter um sabor excelente é utilizado para as viagens espaciais. Portanto sem especiaria, sem viagens pelo espaço. Dessa forma, obviamente, Arrakis adquire uma importância geopolítica muito grande no universo de Duna. Porém apesar de ser muito importante Duna é um planeta inclemente: como seu nome já sinaliza o planeta é essencialmente um deserto gigante com baixíssima umidade no ar.

Essa característica de Duna faz com que o povo nativo do planeta, chamado de Fremens, desenvolvam uma cultura fortemente baseada na preservação e na importância da água. Por exemplo, entre esse povo, a moeda mais importante não é nenhum tipo de metal mas sim água. Outro aspecto que chama atenção em Duna são os gigantescos vermes de areia que andam abaixo da areia, ao menos na maior parte do tempo. Os vermes são muito sensíveis a barulhos e vibrações e atacam assim que detectam alguma possível presa. Sim, a idéia aqui é bastante semelhante ao clássico filme oitentista “O ataque dos vermes malditos”, mais um filme que com certeza bebeu da fonte de Duna.

Tipo isso mas com menos Bacon … Kevin Bacon

Um aspecto que me surpreendeu no livro foi que no universo de Duna computadores e máquinas afins estão banidos. Conta-se por alto que, milênios antes da história do livro em si, as máquinas se rebelaram e houve uma grande guerra entre máquinas e humanos e os humanos venceram mas concluíram que o risco de utilizar computadores é grande demais. Para resolver o problema da ausência de computadores existem os Mentats, que são seres humanos treinados desde a infância para usarem a lógica e fazerem cálculos complexos. Então acaba sendo um universo diferente do SciFi mais tradicional. Aqui temos alta tecnologia e até voo espacial mas não temos computadores ou robôs.

Nesse universo a humanidade se organizou em um intrincado sistema de feudos onde todos tem seus poderes limitados pelos demais. Existe a figura de um imperador que, embora temido e respeitado, não pode fazer tudo que quer sob o risco de causar uma revolta nas demais casas. Mas, nas sombras, os membros das casas e o imperador estão sempre buscando ampliar seu espaço de poder.

Mas isso tudo é o background de um universo rico criado por Frank Herbert. A história em si começa quando, buscando colocar um desafeto seu em uma situação desfavorável, o imperador nomeia o duque Leto da casa Atreides como responsável pelo planeta Arrakis. No universo de Duna isso implica que Leto e sua família precisam morar em Duna. E aí que a história começa.

Embora o livro também acompanhe o ponto de vista de outros personagens o protagonista é o filho do duque Leto, Paul Atreides. É pelos olhos de Paul que vamos conhecendo Duna e esse recurso é bem utilizado fazendo com que, as perguntas de Paul sejam as mesmas que o leitor provavelmente está se fazendo a respeito de Duna.

A mãe de Paul, Lady Jessica, participa de uma ordem mística religiosa composta exclusivamente por mulheres que tem representantes em diversos mundos do universo de Duna, conhecidas como Bené Gesserit. Como filho de Jéssica a mãe lhe treina em muito das práticas das Bené Gesserit, inclusive a de influenciar mentes fracas usando palavras (soa familiar?) e o duque e seu grupo também treina o seu sucessor em diversas artes de combate, militares e de corpo a corpo.

Em determinado momento do livro se desenrola uma conspiração para assassinar o duque e a mesma atinge seus objetivos. Entretanto seu filho Paul, ainda um adolescente, foge para o deserto junto com a mãe e ambos são dados como mortos. Ambos acabam se envolvendo com os Fremens e o objetivo de Paul passa a ser retomar o lugar de seu pai, e talvez ir até um pouco além. Existe uma profecia Fremen sobre um profeta e em vários momentos detalhes da profecia batem com feitos e fatos da vida de Paul. Essa profecia ocupa um lugar bastante importante durante o livro com isso mas múltiplas interpretações são possíveis.

Bom, o que eu achei do livro?

É complicado. Duna não é uma leitura leve. O livro tem seiscentas páginas e levei praticamente um ano lendo-o. A primeira parte não é tão empolgante. A conspiração contra o Duque ocorre aproximadamente na metade do livro e a partir daí o livro se torna bem interessante pois ficamos sabendo mais sobre a cultura Fremen e sobre os vermes de areia. Então a segunda metade do livro flui bem melhor. Entretanto o final eu considerei um pouco apressado. Explico. Durante todo o livro quase todos os personagens são retratados como muito inteligentes. Existem sempre “planos dentro de planos”. A quer matar B, mas ele sabe que B sabe disso então tem que agir já pensando em como fazer para lidar com a reação de B e assim por diante. Apesar disso, no final um dos principais personagens morre de uma maneira muito boba e a grande batalha para retomar Arrakis acontece em poucas páginas. Não posso deixar de ficar com a impressão que Frank Herbert já estava em 600 páginas e pensou “putzgrila, tá ficando muito longo, tenho que terminar isso aqui e rápido!”.

600 páginas?!?! Nem eu aguento mais!

Ler esse último parágrafo pode dar a impressão que Duna é um livro ruim ou que eu não gostei e esse não seria um bom resumo. Duna trabalha de maneira muito legal aspectos como política (como ela é), guerra, religião, fé e ecologia. Sim, ecologia, no livro Arrakis é tão importante que é praticamente um personagem do livro e o autor fez o dever de casa da biologia e imaginou todo um ciclo da vida para Arrakis que soa muito consistente. Além disso, os Fremens tem também como forte influência em sua cultura a religião muçulmana. E isso tudo faz de Duna um livro que soa muito atual no nosso planeta que sofre de grandes problemas ambientais e geopolíticos, muitos deles ligados ao oriente médio.

Duna vai te fazer pensar no meio ambiente muito mais do que certas adolescentes por aí …

Tudo isso faz de Duna uma obra recomendável a todo fã de ficção científica e faz o sucesso de crítica e de público do livro ser totalmente justificável (segundo a wikipédia é o livro de ficção científica mais vendido de todos os tempos). O final do livro deixa alguns pontos em aberto e pretendo voltar algum dia ao universo de Duna nas suas continuações, começando com “Messias de Duna”, livro de 1969. Mas acredito que, assim como a especiaria, Duna é feito para ser consumido aos poucos. Até mesmo para não causar dependência.

PS: A edição da Aleph tá muito caprichada. A capa é muito bonita (foto lá de cima) e tem uma textura que torna o livro macio e agradável ao toque (por mais estranho que soe :P). A edição também trás um glossário (não sei se consta na edição original) com termos e palavras usados ao longo do livro que ajudam bastante.

Fontes das imagens: